Desejo de mim


 Nunca mais escrevi. É que há tempos uma palavra não me pega pelo braço para explicar o que eu sinto em texto. Tenho sentido muito, e a verdade é que uma palavra não dá conta do tanto que tem acontecido.


Achei que em 2023 tinha perdido muito. Para minha surpresa, sigo perdendo, e eu nem sabia que isso era possível. Me perdi das palavras também?


Das coisas que eu perdi a maioria não são coisas. São pessoas com as quais vivi; são sonhos e planos que eu achei que me esticando conseguiria alcançar; é quem eu pensei que seria, no lugar em que estaria nesse alto da vida. A maioria não são coisas, são eu nas coisas. Tem palavra para isso?


Me forço a pensar que ao passo que perco, ganho outros contornos de eu. Saem os excessos que não precisam mais estar, ou o ideal de eu que imaginei para mim. Fica o eu-lapidada. Essa palavra existe?


Se coubesse a mim escolher, em vez de ser madeira talhada eu seria árvore de Natal, com enfeites, penduricalhos e muitas luzes. Seria um dicionário inteiro de palavras, seria a hipérbole das experiências de toda vida que é possível viver. Tem palavra para tanto?


No primeiro texto que escrevi no ano, determinei que “desejo” seria minha palavra imperativo. Por mim, todos os dias seriam de exageros e excessos de vida. Por que meias palavras se eu posso ter palavras inteiras?


Mas, a verdade é que eu tenho vivido sem energia para ser mais que eu… e, pensando bem, talvez, o desejo que 2024 anunciou não seja para fora. Talvez o que eu tenho perdido sejam coisas desejos-de-mundo. Talvez conseguir dar conta de mim, e do que eu sinto, já seja desejo grande o suficiente. Talvez o desejo do ano seja eu, e só agora entendi.

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