DOZE
Vó,
Julho não chove mais aqui em Teresina. A
temporada fresca do ano se encerra e logo mais inicia o B R O – BRO¹[1]. Com o calor que se
aproxima, lembro do quente das tardes em que assistíamos o dia partir, sentadas
na calçada, conversando sobre a vida.
Eu queria ter uma memória melhor para
lembrar de tudo que conversávamos! Sobre as suas vivências, as suas dores e, o
que com exemplos tentava me ensinar. Resgato coisas da sua vida, e das nossas
conversas, como numa tentativa, muitas vezes frustrada, de te ter por perto.
Ontem, enquanto estava no trabalho,
assistia o sol se pôr laranja da janela do escritório. Tive vontade de fugir!
Fugir de todas as responsabilidades, todos os pesos, tudo que me preocupa,
entristece, chateia e que me tira de mim. Daí, que me lembrei da vez que você
contou que fugiu com o circo!
Aos doze anos seu pai te entregou para a
família de Raimundo, conhecida em Floriano/PI por ter uma manada de jumentos, o
que na época apontava para um potencial de riqueza e desenvolvimento.
Engraçado! Hoje jumento é um dos bichos mais desvalorizados e maltratados no
que diz respeito a carga de animais. Naquele tempo não.
Vô Raimundo vivia em viagens Piauí
adentro, vendendo jumento e tudo o mais que tivesse consigo. Vô vendia saúde e
juventude também. Era conhecido por ser namorador e pelos vários
relacionamentos que tinha nas cidades por onde andava... Eventualmente, tinha
muitos filhos por onde passava também.
Ele não foi carinhoso, nem atencioso e nem
presente com você. Te trancava em casa enquanto saía para festas, te privava de
ter contato com a família, te impediu de continuar a ter amizades, era ciumento
e tinha você como propriedade dele. Aos doze anos o casamento não se apresentou
como uma experiência feliz. Ele era sim uma condenação.
Vô,
todas as vezes que visitava a cidade em que moravam fazia questão de partir,
para uma nova viagem de trabalho, te deixando grávida. Foi assim que sozinha você
teve doze filhos.
Mas, antes dessas doze gestações, quando
você já sentia que seu casamento não seria feliz e que a vida, possivelmente
seria solitária, Roberto apareceu. E foi
de verdade uma aparição! O “Circos de Oz” era uma companhia circense que rodava
o Brasil apresentando espetáculo que contava com malabaristas, equilibristas,
palhaços e mágico.
Roberto era mágico. Depois de saber que o
circo estava na cidade e de alguma insistência para ver ao espetáculo, vô
Raimundo a levou para assistir em uma tarde de domingo. As luzes, a pipoca, as
cores e as risadas te lembravam de uma vida, que você não tinha mais, uma vida
feliz.
Quando Roberto apareceu, tirando flores
brancas de uma cartola velha, seus olhos encontraram os dele e, como mágica,
parecia que a vida podia tornar a ser encantada. Entre olhares e feitiços,
Roberto te apresentava, no silêncio que fazia e na surpresa que provocava na
plateia, o desejo de uma vida nova, diferente daquela que era a sua.
Naquele mesmo dia você traçou um plano de
fuga. Na última noite de circo na cidade (o carro de sol anunciaria esse dia),
enquanto vô Raimundo dormisse na rede armada na sala, sairia pelos fundos de
casa, carregando consigo apenas a roupa do corpo e aquele grampo de cabelo que
pertencera a sua avó e que com carinho guardava consigo. Encontraria a tenda de
Roberto e partiriam juntos, assim que o circo levantasse a lona.
E foi assim que fez, saiu desbravando a
noite ao encontro do circo, procurou aos sussurros a tenda de Roberto e, para
sua surpresa, o encontrou entre carinhos com a equilibrista. Você quis fugir da
fuga!
Entre choro e lamento fez o caminho de
volta para casa, questionando Deus o porquê da infelicidade que a vida lhe
resevava. Você quis fugir da vida que tinha e ela se mostrou como única que
poderia teria.
Nesse dia, com esse caso, você me ensinou
que, muitas vezes, a vida não acontece como a mágica do planejado. O que cabe é
tentar tirar o melhor que se pode do difícil que se tem. Foi assim que você
criou filhos, educou netos e fez da vida que se apresentou a melhor que se pôde
ter. Não fugiu, enfrentou.
Encarei o sol laranja e voltei a
trabalhar. Nesse dia o expediente foi até as 22h. Você continua me ensinando
até em lembrança, vó. Espero que esteja bem daí. Daqui sigo saudosa e com o
desejo constante de ter a melhor vida que eu possa, por mim e em sua memória.
Com carinho,
Julianna
[1]
Meses do ano que encerram com BRO: setembro, outubro, novembro e dezembro que,
costumam ser os mais quentes do ano.


Ah, que texto lindo! O final realmente me surpreendeu hahaha
ResponderExcluir