Triste menina que não conheceu Salvador



Salvador é laranja! A cidade se desenha em tons de vermelho e amarelo que juntas fazem o laranja que está por toda parte. Por toda parte também tem o preto! Criando, movimentando e dando vida a cidade. É isso! Salvador é preto e laranja.

Quando a pino, o sol que toca as águas que circundam a cidade, refletem uma mulher-mãe-preta que carrega a ancestralidade e a fé de um povo. A comida em Salvador é quente, na temperatura e no ardor e, o som que ecoa por onde se passa é o de tambores anunciando o afoxé.

No meu primeiro dia a passeio na cidade, enquanto conhecia a Farol da Barra, vi a cena que me deu a certeza de que um dia voltaria para ficar. Era tarde, por volta das 16h e crianças brincavam com a areia da praia. Mas, elas não construíam castelos! Elas colocavam a areia molhada nos ombros e no rosto formando uma armadura de areia escura, eles se vestiam de areia.

Me emocionei com a cena e na hora, entendi a brincadeira como uma mensagem clara e direta de que, desde que pretas, crianças não vivem em fantasia. É preciso desde cedo aprender a se armar contra as estratégias de apagamento das Histórias.

Eu, mulher preta, quis me vestir de Salvador também! Quão diferente teria sido a vida, a minha relação comigo, com o cabelo, com o meu corpo, com as pessoas, se tivesse nascido e vivido em um lugar em que se é como eu?

Laranja, mulher, ancestral, quente, ao som do tambor e que se veste! Triste da menina preta que fui, por não conhecer Salvador.


 

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